domingo, 24 de julho de 2016

Mãe

Minha mãe com sua franqueza,
com amor no coração,
corrige a minha fraqueza
com bom senso e oração.

                                                                                                                Amanda da Silva

Memória

7ª LEI: PROTEGER OS SOLOS DA MEMÓRIA

Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as mãos para cultivá-las...


 Proteger os solos da memória é cuidar da qualidade dos arquivos conscientes e inconscientes que contêm os segredos da nossa personalidade.
É se preservar do registro do medo, do desespero, das mágoas, enfim, do lixo de nossa existência. É também reescrever os arquivos doentios já arquivados.
 Todos se preocupam com os arquivos dos computadores, mas raramente alguém se preocupa com as mazelas e misérias arquivadas em sua memória. Se não protegermos a memória, é possível ter uma vida completamente infeliz, mesmo com uma infância saudável.
 Por favor gravem isso. Nos computadores o registro depende da vontade, na memória humana o registro dos pensamentos e emoções é involuntário, realizado pelo fenômeno RAM (registro automático da memória). Nos computadores, a tarefa mais fácil é apagar os arquivos; no homem é impossível, a não ser por traumas cerebrais.
 Embora difícil, precisamos aprender a proteger a nossa memória. Toda angústia, medo, agressividade e idéias negativas registram-se e não podem mais ser deletadas, só reeditadas. Diariamente, você planta flores ou constrói favelas na sua memória. Como assim?

 AS FAVELAS DA MEMÓRIA

 Vamos comparar a memória com uma grande cidade, cada bairro com um arquivo e cada endereço com uma informação. Diariamente arquivamos novas informações que constroem belos bairros ou áridas favelas. Por isso há ricos pobres e pobres ricos.
 Muitos moram em bairros nobres, querem ficar distantes das zonas pobres. Mas nos solos de sua memória pode haver inúmeras favelas, arquivos doentios. Alguns são privilegiados financeiramente, mas miseráveis interiormente. Em duas mansões há jardins, mas na sua emoção há tristeza e desolação.

FOBIAS

 As fobias são provenientes de uma interpretação distorcida que gera um registro exagerado de um objeto fóbico: insetos, animais, pessoa, ambiente. A claustrofobia é o medo de lugar fechado, tal como um elevador; a acrofobia é o medo de altura; a fobia social é o medo de lugares públicos; a fobia simples é o medo de insetos e animais. Mas o pior tipo de medo é o medo do medo.
 O fenômeno RAM fotografa bilhões de experiências durante nossa existência. Todos nós, mesmo os que tiveram uma infância feliz, adquirimos enormes favelas no inconsciente. Quais são as suas favelas?

UMA BARATA MAIS PODEROSA DO QUE UM SEQUESTRADOR

 Dependendo do volume de tensão, as experiências existenciais podem ser registradas de maneira tão traumática que controlam a inteligência. Uma barata pode ser registrada como um monstro, um elevador como um cubículo sem ar, uma reunião em grupo, como um ambiente agressivo e castrador.
 Lembro-me de uma paciente que foi seqüestrada e ficou mais de um mês no cativeiro. Sabe qual a primeira coisa que ela perguntou aos seqüestradores? Se haveria baratas no ambiente em que ela ficaria.
 O medo de baratas apavorava-a mais do que os seqüestradores. Por quê? Porque na sua infância registrou a imagem de adultos em pânico diante de baratas. Infelizmente havia no cativeiro muitas baratas. Uma cobra apareceu e quase a picou, mas nada a perturbou tanto quanto as baratas.
 Para dormir ela suplicava calmantes aos seqüestradores. O medo encarcerou sua liberdade. Há medo de todos os tipos: medo de perder o emprego, de ser assaltado, de um ataque terrorista, de andar de carro, de ficar sozinho, de ser rejeitado, de fracassar. Quais são seus medos?

UM MEDO MUITO ESTRANHO

 Recentemente uma jovem universitária disse-me que tinha um medo incomum: pavor de pássaros. Um trauma na infância levou-a a ter medo das inofensivas aves. Contou-me que podia enfrentar um cachorro bravo, mas não um beija-flor. Como nossa mente é complexa!
 Quem controla a nossa mente não é a realidade real de um animal, pessoa ou situação, mas a realidade emocional registrada na memória.
Temos uma fantástica inteligência, deveríamos ser livres, mas facilmente criamos gigantes em nosso inconsciente que nos ameaçam e nos aprisionam.

ESQUECIMENTO

 Nossa memória é inúmeras vezes mais sofisticada do que a de um supercomputador. Mas as pessoas estão reclamando de que estão esquecidas, com memória “fraca”. Elas esquecem encontros, objetos, novas informações. Desesperadas, procuram médicos, mas nada encontram. Deixe-me dar uma refrescante notícia.
 Não existe memória fraca, mas bloqueada, devido à proteção cerebral. Como o cérebro tem mais juízo do que nós, ele trava a memória para evitar que pensemos muito e gastemos energia excessiva. Bendito esquecimento.



UMA BOA NOTÍCIA PARA JOVENS E ADULTOS

  Quer abrir as janelas da memória e libertar a inteligência? Quer brilhar na s reuniões de trabalho e emitir opiniões lúcidas? Quer ser uma fera intelectual nos concursos e entrevistas?
 Primeiro estude dedicadamente. Segundo, controle a fera da insegurança e do medo que habita em sua emoção! O cérebro interpreta o medo como se sua vida estivesse em perigo, por isso bloqueia os arquivos e produz os famosos “brancos”. Você tem uma fantástica inteligência. Mas lembre-se de que o medo de falhar acelera a derrota.

DICAS PARA PROTEGER A MEMÓRIA

 Viva intensamente “as leis” para ser feliz: contemple o belo, gerencie a emoção, trabalhe perdas. Mas o que fazer com os traumas já registrados? É necessário reeditar o filme do inconsciente, sobrepondo novas experiências sobre as antigas. Eis o maior desafio da inteligência!
 É necessário “criticar” diariamente as imagens doentias da memória que nos controlam. É necessário também “não pedir” mas “determinar” ser alegre, ousado, seguro, saudável. Essas ferramentas reurbanizam as favelas do medo, do ódio, da autopunição e nos libertam.


O tradicional sábado

O tradicional sábado
                                                   Aluna:
                                                   Larissa Rebeca de Araújo Nobre

          São cinco horas da manhã de sábado. Brisa suave, cheiro de natureza e dia de correria Acordo mais cedo para acompanhar a rotina da minha casa que é semelhante ao vaivém que se instala na minha cidade nesse dia. As ruas principais estão movimentadas, carros lotados vindos dos sítios vizinhos. As pessoas costumam acordar cedo para encontrar frutas e verduras ainda bem frescas na feira livre.
          Sempre acompanho minha mãe nas compras da semana. Passamos os olhos por quase todas as bancas enfeitadas com o colorido das frutas e, após precioso tempo escolhendo o menor preço e a melhor mercadoria, enchemos nossas sacolas e ficamos mais pesadas. Sentimos fome e não resistimos a um delicioso copo de salada, vendido ali mesmo, para enganar o estômago. Com o vaivém entre as bancas, pessoas se esbarram, se tocam involuntariamente. É possível sentir diferentes aromas que se misturam com o passar das horas. Suor, perfume das frutas, fumaça de cigarros se entrelaçam com os variados sons de gargalhadas, sussurros, gritos dos feirantes, anúncios em sons improvisados que se propagam por todo o ambiente. Nesse dia as lojas fazem a festa, os taxistas e motociclistas descansam menos, os bancos da praça principal são mais visitados e a Igreja Matriz de São Sebastião se alegra com a quanti-dade de fiéis. Muitas vezes a feira livre de minha cidade também é palco para o reencontro de amigos, familiares, compadres, pessoas que moram em sítios distantes, além de ser um ótimo momento para se fazer novos amigos e conquistar novos amores.Como tudo que é bom dura pouco, a feira enfim termina. As bancas desaparecem levando toda essa agitação. Ficam as ruas cheias de lixo espalhado por todos os lados. Entram em cena os garis que, em poucas horas, devolvem ao local o seu aspecto natural.
          Por ser uma cidade pequena, Florânia torna-se invisível aos olhos de muitos. Porém tenho orgulho e sinto prazer em ver minha cidade cultivar tradições como a feira livre, mostrando que ainda preservamos nossa cultura.
Professora: Judileide Silva Morais
Escola: E. E. Teônia Amaral Ensino Médio e EJA –
Florânia (RN



crônica?

Notícia ou texto literário?

          Por apresentar múltiplas facetas, mais do que um gênero textual, a crônica traz um olhar particular.
          Ao recortar cenas do cotidiano, o autor ilumina situações, fatos, dando-lhes destaque, atribuindo-lhes um novo sentido.
          O que poderia passar despercebido torna-se encantador, envolvente, surpreendente, marcante.
          Ao contrário do que parece, a criação de uma crônica não é tarefa simples. Construir um sensível olhar pensante, selecionando e amarrando os detalhes, é o primeiro passo para elaborar um texto interessante que transporta o leitor para a perspectiva do escritor.
          Sensações, observações, lembranças e casualidades se misturaram: nossos jovens cronistas identificaram personagens pitorescos, construíram novos sentidos para experiências cotidianas e passaram a valorizar o lugar onde vivem.


Ardina

Ardina

Aquele rapazinho que todas as tardes, ao fim da tarde, anda a vender jornais por entre carros que estão quase a parar, que estão quase a arrancar, na faixa central da Avenida, não repara que a morte lhe passa tangentes constantes. É decerto um rapazinho que ainda não conhece nada da morte, nem mesmo quer saber se ela existe. Sabe-se leve e rápido, sabe que tem bons reflexos. Por isso, arrisca. Ao menino e ao borracho, diz o povo... Mas eu lembro-me, sempre que o vejo, sempre que por uma ou por outra razão subo a Avenida dentro de um dos traçadores de tangentes (não quero pensar em secantes), de um conto que li em tempos, porque ai esta nossa cultura livresca... Não sabíamos nada, ainda pouco sabemos, das pessoas vivas, de como elas vivem e lutam, mesmo só aqui, nesta nossa cidade, grande e confusa cabeça do corpo frágil que é Portugal, e vamos recordar um ardina de papel, um rapazinho pequeno encontrado há muitos anos num livro, brasileiro ainda por cima. Era também, salvo erro, um rapazinho numa cidade grande, um menino de periferia, do morro, talvez. Ao que me lembro vendia jornais e pendurava-se nos eléctricos para chegar mais depressa ou talvez por aventura, sim, creio que era por aventura, que o fazia. Até ao dia em que caiu e a aventura terminou. Recordo esse ardina dentro de um livro, ao olhar para este, dentro da vida, e a brincar - a brincar? - com a morte, ziguezagueando, por entre ela, enquanto apregoa os jornais da tarde.
Cuidado menino, estou quase a gritar. Mas nunca vou a tempo. Porque a luz está, de súbito, verde, e ele está, de súbito, longe. Dir-se-á que andam à mesma velocidade, ele e a luz.
                                                               Maria Judite Carvalho,

                                   O Homem do Arame (1979)

sábado, 23 de julho de 2016

Do rock

Do rock

                                                                                        Carlos Heitor Cony


Tocam a campainha e há um estrondo em meus ouvidos. A empregada estava de folga, o remédio era atender o mau-caráter que me batia à porta àquela hora da manhã. Vejo o camarada do bigodinho com o embrulho largo e enfeitado.
— É aqui que mora a senhorita Regina Celi?
Digo que não e fulmino o importuno com um olhar cheio de ódio e sono, mas antes de fechar a porta sinto alguma coisa de íntimo naquele “senhorita Regina Celi”, sim, há uma Regina Celi em minha casa, minha própria filha, mas apenas de 12 anos, uma guria bochechuda ainda, não merecia o título e a função de senhorita.
Chamo o homem que já estava no elevador. Eram CDs, a garota encomendara um mundão de CDs numa loja próxima, e pedira que mandassem as novidades, pois as novidades estavam ali, embrulhadinhas e com a nota fiscal bem às claras.
Gemo surdamente na hora de assinar o cheque e recebo o embrulho. A garota dormia impune, o mundo podia desabar, e ninguém a despertaria do sono 12 anos. Deixo o embrulho em cima do som e volto para a cama, forçar o sono e a tranquilidade interior, abalada pelo cheque tão matutino e fora de propósito. Quando ordeno os pensamentos e ambições no estreito espaço do meu pensamento e retomo um sono e um sonho sem cor nem gosto, começa o rock.
Anos atrás, seria começa o beguine. Mas o beguine passou de moda, e o swing, o mambo, o baião e outras pragas vindas de alheias e próprias pragas. Pois aí estava o rock, matinal, cor de sangue e metal inundando o dia e o quarto com sua voz rouca, seu compasso monótono e histérico.
Purgo honestamente meus pecados e lembro o pai, que me aturava a mania pelos sambas de Ary Barroso. O velho não dizia nada, mas me olhava fundo e talvez tivesse ganas de me esganar. Mas me aturava e aturava o meu Brasil brasileiro. Hoje, aturo o rock. Vou ao banheiro, lavo o rosto, visto um short e vou para a sala disposto a causar boa impressão à senhorita Regina Celi, que de babydoll, esbaforida, se degringola ao som de U2.
O tapete já fora arrastado e amarfanhado a um canto. Meu castiçal de prata foi profanado com a cara de um tipo até simpático que naquela manhã ganhará alguma coisa à custa do meu labor e cheque. A senhorita Regina Celi tem a cara afogueada, os pés e as pernas avançam e ficam no mesmo lugar, o corpo todo treme e sua, até que ela me estende o braço.
— Vem, papai!
O peso dos meus invernos e minhas banhas causa breve hesitação. Mas ali estamos, eu e a senhorita Regina Celi, uma menina que ainda pego no colo e aqueço com meu amor e o meu carinho, quando ela tem medo do mundo ou de não saber os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas na hora do exame. Ela me chama e me perdoa.
Então, aumento o volume do som, espero o tal do U2 dar um grito histérico e medonho — e esqueço o cheque, a vida e a faina humana rebolando este cansado corpo-pasto de espantos — até que o fôlego e o U2 acabem na manhã e no som.

Crônicas para se ler na escola.

Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

Quem tem medo de mortadela?

Quem tem medo de mortadela?

                                                                                                          Mário Prata


Modismo é conosco mesmo. O brasileiro adora inventar moda. E todo mundo vai atrás dela. A última do brasileiro é “primeiro mundo”. Os publicitários nativos inventaram a expressão e agora tudo que nós queremos tem que ser coisa do “primeiro mundo”.
O carro é do primeiro mundo, a bebida é do primeiro mundo, a mulher é do primeiro mundo. Cineastas querem fazer filme de primeiro mundo, diretores de teatro trazem a moda lá da Europa. E os preços, evidentemente, também são de primeiro mundo.
Será que não nos bastam os exemplos de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia, que se debruçaram na mamata da CEE e agora enfrentam uma séria recessão e desemprego?
Por que essa mania, de repente, de querer virar primeiro mundo? De terceiro para primeiro? Não seria o caso de fazer um estágio, antes, no segundo mundo?
Os do primeiro mundo adoram as coisas aqui do terceiro. Por exemplo, a caipirinha. Alemães, ingleses, americanos, suecos caem trôpegos pelas calçadas de Copacabana. Quer coisa rnais brasileira, mais terceiromundista, mais caipira e mais barata? Mas já estão avacalhando com ela. Agora já tem caipirinha de vodca e, pasmem, de rum. Caipirinha sempre foi e sempre será de cachaça. Coisa de caipira mesmo. E é esta bebida que os europeus vêm procurar aqui. Mas já meteram a vodca e o rum nela para ficar com cara de primeiro mundo. Vamos deixar a caipirinha caipira, brasileiros!
Toda essa introdução para chegar à mortadela. Ou mortandela, como preferem garçons e padeiros. Quer coisa mais brasileira que a mortadela? Claro que ela veio lá da Itália. Mas tornou-se, talvez pelo baixo preço, o petisco do brasileiro. O nome vem de murta, uma plantinha italiana que lhe valeu o nome. Infelizmente o brasileiro acha que mortadela é coisa de pobre, de faminto. E o que somos nós, cara-pálidas?
A cachaça e a mortadela são produtos do Brasil, do nosso querido terceiro mundo. Mas acontece que há um preconceito dos patrícios contra a cachaça e a mortadela. Contra a mortadela o caso é mais grave. Se você oferecer mortadela numa festa, vão te olhar feio. Você deve estar perto da falência.
Neste Natal e no Reveillon frequentei várias mesas, e em nenhuma havia mortadela. Queijos de primeiro mundo, vinho de primeiro mundo, perfumes de primeiro mundo, até um peru argentino eu comi. Mas mortadela que é bom, nada. Nem uma fatiazinha.
Quando o brasileiro irá assumir que a mortadela é a melhor entrada do mundo? Quando você for para a Europa, não adianta pedir dead her que não vai encontrar. Nem muerta dela.
Mas nem tudo está perdido. No dia 1° do ano almocei com o casal Annette e Tenório de Oliveira Lima, e lá estava a mortadela, fresquinha no prato rósea. Um limãozinho em cima, um pedacinho de pão e viva o terceiro mundo, visto lá de cima do apartamento do Morumbi.
No mesmo dia, de noite, fui ao peemedebista Bar Nabuco, debaixo de frondosas sibipirunas da Praça Vilaboim e estava lá, no cardápio, toda sem-vergonha, a mortadela brasileira. Achei que estava começando bem o ano. Vai ser um Ano Bom, como se dizia antigamente. Se os novos-ricos do PMDB estão comendo mortadela, nem tudo está perdido. No Gargalhada Bar mais para PT, há um excelente sanduíche de mortadela.
E, nas boas padarias do ramo você ainda encontra a verdadeira mortadela, aquela que chega no balcão, feita na chapa, sem queimar muito, servida em pãezinhos saídos do forno.
Vamos deixar o primeiro mundo para lá. Vamos, este ano, tomar cachaça e comer mortadela. É muito mais barato ser pobre. Deixemos que o primeiro mundo exploda entre eles, mesmo tomando uísque escocês e comendo queijo fedido.
Por favor senhores brasileiros primeiro-mundistas, vamos deixar de frescura. Mortadela é o que há. É um barato.
Feliz 94 para todos vocês. Muita cachaça e muita mortadela. Apesar de tudo, o primeiro mundo é triste e melancólico. Continuemos felizes e alegres com a nossa cachaça e a nossa gostosa mortadela.
E que os candidatos à presidência deste nosso país do terceiro mundo não se esqueçam que o Jânio sempre se elegeu comendo “mortandela” e não caviar do primeiro mundo.
Publicada no jornal O Estado de S. Paulo, 5/1/1994.


Catadores de tralhas e sonhos

Catadores de tralhas e sonhos

                                                                                              Milton Hatoum


São centenas, talvez milhares os catadores de papel nessa megalópole. Puxam ou empurram carroças e catam objetos no lixo ou nas calçadas. É um museu de tralhas variadas: restos de materiais para construção, papel, caixas de papelão, embalagens de inúmeros produtos, e até mesmo objetos decorativos, alguns belos e antigos, desprezados por algum herdeiro.
Há carroças exóticas, pintadas com desenhos de figuras pop, seres mitológicos, nuvens, pássaros e vampiros. Em Santana, vi uma carroça que lembrava um jinriquixá, só que maior do que o veículo asiático.
Era puxada por um velho e transportava uma avó e seu netinho, sentados em pilhas de papel. Perguntei ao carroceiro quanto ele cobrava pelo transporte de passageiros.
"Depende... Pra perto daqui, cinco reais. Pra fora do bairro, cobro 15 ou 12, depende do passageiro e do dia. Não gasto gasolina, nem nada, é só força mesmo, amigo."
E haja força, leitor. Mas esse meio de transporte é raro na metrópole. Quase todas as carroças só carregam quinquilharias, uma e outra exibem aforismos, poemas, ditados. Vi carroças líricas, políticas, filosóficas, cômicas, moralistas, anarquistas. Numa delas se lia:
"A verdade é uma desordem... Alguém tem dúvida?".
Noutra, pintada de verde e amarelo: "Aqui só carrego bagunça, mas sou homem de paz". A que mais me chamou atenção foi uma carroça linda, com uma pintura geométrica que lembra um quadro de Mondrian. Na lateral, estava escrito:
"Carrego todo tipo de tralha, e carrego um sonho dentro de mim".
Era uma carroça mineira, pois ostentava uma bandeira de Minas. Conversei um pouco com esse carroceiro de São João del-Rei. Acho que perdeu a desconfiança nas ruas paulistanas, pois não se esquivou de mim, e ainda me mostrou uma luminária de aço, fabricada em Manchester (1946). Esse objeto havia sido abandonado numa caixa de papelão e recolhido pelo caprichoso carroceiro de Minas.
Especulei a origem da luminária e me indaguei: quantas páginas esse belo objeto tinha iluminado em noites do pós-guerra?
Depois o carroceiro abriu uma caixa e me mostrou livros velhos, em língua alemã. Disse que tinha encontrado tudo numa mesma calçada do Jardim Europa, e agora ia vender os livros para um sebo. Ele me olhou e acrescentou:
"Ando solto, não gosto de ser botado preso dentro de curral. A gente encontra cada coisa por aí... Só não encontra o que a gente sonha".
Comprei a luminária desse filósofo ambulante, mas não me interessei pelos livros, que talvez sejam relidos por algum germanófilo de São Paulo.
Sei que não é fácil encontrar um sonho nas ruas; mas encontrei carroceiros simpáticos e um assunto para escrever esta crônica.

Caderno 2 do Jornal O Estado de São Paulo, em 27 de março de 2015

Ser brotinho

Ser Brotinho
                                                                              Paulo Mendes Campos

Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballete desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15.
Conheça Paulo Mendes Campos e sua obra visitando "Biografias".


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Rir com o cérebro

RIR COM O CÉREBRO

                                                                                                                       Martha Medeiros.

Abra uma revista feminina e estarão lá todas as dicas para a felicidade eterna: como fazer um casamento durar, como relacionar-se bem com seu chefe, como manter uma amizade, etc., etc. Quem leu uma reportagem leu todas: elas são unânimes em dizer que é fácil descomplicar a vida. Será?

Existe, sim, uma maneira de dar alívio imediato para as agruras da nossa sacrossanta rotina. Anote aí a palavra mágica: humor.

Nada de novo no front. A maioria das pessoas sabe que o humor é o melhor paliativo para o caos emocional em que vivemos. Só que não funciona para todos: um grande contador de piadas não é, necessariamente, feliz. Humor nada tem a ver com palhaçada. Não é preciso mostrar todos os dentes.

Humor é uma maneira de enxergar o mundo. E o olhar irônico, crítico e, por vezes, benevolente de quem sabe que nada deve ser levado demasiadamente a sério.

Quantas vezes você viu Woody Allen gargalhar? E Paulo Francis, Millôr, Verissimo? Ri melhor quem ri com o cérebro. Muita gente se queixou dos comentários de Arnaldo Jabor na entrega do Oscar. A troco? Por que ele deveria reverenciar um glamour que acha careta, por que deveria calar diante da magnificência da festa? Billy Cristal zombou de tudo e de todos, mas dentro do script. Jabor fez apenas o papel de Jabor: ácido, independente e do contra. O mau humor também pode ser engraçado, e vale lembrar que todo humor é transgressor.

O estresse não compensa. Você gastou uma fortuna num vestido e, quando vai estreá-lo, dá de cara com um par de vaso. Seu marido disse que ia chegar às oito, mas chegou às dez. Sua mãe disse que iria buscar os ingressos do teatro, mas esqueceu. O hóspede que iria ficar só dois dias já está dando ordens para a empregada. Você é entrevistado por alguém que lhe chama o tempo inteiro de Fernanda, e você é Sílvia desde criancinha. O cachorro da sua amiga apaixonou-se perdidamente por sua perna. O pão acabou justo na hora do café. Sua meia-calça desfiou. Seu voo atrasou. Seu cheque voltou. Ou você passa a ter mania de perseguição ou releva. Depende você sabe do quê.

Se você ainda não está totalmente convencida, pense em como faz falta o humor na vida de Itamar Franco e como sobra na de Rubinho Barrichello.

Repare como aqueles que relativizam as derrotas têm menos rugas. Pense que, enquanto você controla horário de marido, arruma briga com o zelador e excomunga meio mundo porque sua unha quebrou, tem gente cuja filha foi metralhada na porta do colégio ou cujo pai dorme na rua em busca de uma senha para conseguir atendimento médico. Assovie.

O que as revistas femininas deveriam receitar é: não acredite em tudo o que
ouve. Nem em tudo o que diz. Suspenda a descrença quando quiser  prazer.
Não subestime  os outros, nem os  idolatre demais.  Seja educada, mas não
certinha. Faça coisas que nunca imaginou antes. Não minta, nem conte toda
a verdade. Dance sozinha quando ninguém estiver olhando.


Divirta-se enquanto seu lobo não vem.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Estrutura da crônica

Provavelmente a maioria das pessoas já leu uma crônica e talvez não faça ideia. Esse formato literário, no passado, era muito visto em jornais onde vários autores escreviam histórias em forma de crônica nos periódicos. Atualmente ela ganhou espaço em blogs e continua sendo muito utilizada em jornais, entenda um pouco sobre a estrutura da crônica e saiba reconhecê-la.


Por mais que a crônica seja utilizada em revistas e jornais, ela se diferencia da noticia, pois não pretende informar alguém, mas passar alguma experiência ou contar uma história. O foco narrativo desse tipo de texto é, invariavelmente, em primeira pessoa, já que o autor está contando sua experiência. A estrutura da crônica é muito parecida com a do conto, possuindo um começo, meio e o fim.


O cronista, ao contrário do jornalista, dá um toque pessoal aos fatos que está descrevendo, ele narra os acontecimentos da maneira que quer incluindo detalhes fictícios, fantasiosos ou críticos. Uma crônica normalmente é curta e não se estende em capítulos.


Segue um trecho da crônica “Rir com o Cérebro” de Martha Medeiros
“Repare como aqueles que relativizam as derrotas têm menos rugas. Pense que, enquanto você controla horário de marido, arruma briga com o zelador e excomunga meio mundo porque sua unha quebrou, tem gente cuja filha foi metralhada na porta do colégio ou cujo pai dorme na rua em busca de uma senha para conseguir atendimento médico. Assovie.”


A crônica 190716

A crônica é um texto de caráter reflexivo e interpretativo, que parte de um assunto do cotidiano, um acontecimento banal, sem significado relevante.

É um texto subjetivo, pois apresenta a perspectiva do seu autor, o tom do discurso varia entre o ligeiro e o polêmico, podendo ser irônico ou humorístico.

É um texto breve e surge sempre assinado numa página fixa do jornal.

CARACTERÍSTICAS DA CRÔNICA

A – O DISCURSO
01 – Texto curto e inteligível (de imediata percepção);
02 – Apresenta marcas de subjetividade – discurso na 1ª e 3ª pessoa;
03 – Pode comportar diversos modos de expressão, isolados ou simultaneamente:
a)      Narração;
b)      Descrição;
c)      Contemplação/efusão lírica;
d)      Comentários; e
e)      Reflexões.
04 – Linguagem com duplos sentidos, jogos de palavras, conotações;
05 -  Utiliza a ironia;
06 – Registro de linguagem formal ou informal;
07 – Discurso que vai do oral ao literário;
08 – Predominância da função emotiva da linguagem sobre a informativa;
09 – Vocabulário variado e expressivo de acordo com a intenção do autor;
10 – Pontuação expressiva;
11 – Emprego de recursos estilísticos.

B – TEMÁTICA
01 – Aborda aspectos da vida social e cotidiana;
02 – Transmite os contrastes do mundo em que vivemos.
03 – Apresenta episódios reais ou fictícios.

EM TEMPO: A crônica pode ser política, desportiva, literária, humorística, econômica, mundana, etc.



Crônica 190716


A crónica é um texto de caráter reflexivo e interpretativo, que parte de um assunto do cotidiano, um acontecimento banal, sem significado relevante.
É um texto subjetivo, pois apresenta a perspectiva do seu autor, o tom do discurso varia entre o ligeiro e o polÊmico, podendo ser irÔnico ou humorístico.
É um texto breve e surge sempre assinado numa página fixa do jornal.

CARACTERÍSTICAS DA CRôNICA
A - O discurso
1.  Texto curto e inteligível (de imediata percepção);
2. Apresenta marcas de subjectividade – discurso na 1ª e 3ª pessoa;
3. Pode comportar diversos modos de expressão, isoladamente ou em simultâneo:
A) narração;
B)  descrição;
C)  contemplação / efusão lírica;
    d) comentários; e
    e) reflexões,
4. Linguagem com duplos sentidos / jogos de palavras / conotações;
5.  Utiliza a ironia;
6. Registo de língua corrente ou cuidado;
7.  Discurso que vai do oralizante ao literário;
8. Predominância da função emotiva da linguagem sobre a informativa;
9. Vocabulário variado e expressivo de acordo com a intenção do autor;
10.           Pontuação expressiva;
11.           Emprego de recursos estilísticos.

    B - A temática
1.  Aborda aspectos da vida social e cotidiana;
2. Transmite os contrastes do mundo em que vivemos;
3. Apresenta episódios reais ou fictícios.

EM TEMPO:

A crÔnica pode ser política, desportiva, literária, humorística, econôMica, mundana, etc. 

Significados




ESTADO DO PARANÁ
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO
COLÉGIO ESTADUAL JUVENAL MESQUITA - ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO
( (43) 3542-4490 *  - RUA SÃO PAULO, 440 – VILA MACEDO, CEP 86360-000
BANDEIRANTES – PARANA



CONEXÃO BANDEIRANTES

Ler: interpretar o que está escrito.
Estudar: fazer o possível para conhecer ou compreender.
Instruir-se: educar-se.
Tesouros: conjunto de objetos de grande valor.
Úteis e: que é necessário.
Reais: QUE EXITEM DE FATO.
AMÉM!!!!!!!!: assim seja!!!!!!!!

                                                                                                  MAO
                                                                                                  BANDEIRANTES, 21/10/2011.